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Conto “Era minha primeira turma”

Atualizado: Jun 18

Um senhor já com a idade avançada e rugas no rosto se dirigiu até a sala de sua casa depois de ter lavado a louça do almoço.

Ele olhava seus netos pois seu filho mais velho tinha ido fazer uma viagem com a esposa para ver a mãe da moça que não andava bem.

Ao chegar na sala, o homem encontrou os netos, Lali e Dinho sentados em uma colcha no chão esperando o velho.

O menino pediu para que o senhor contasse uma das “histórias” de seus alunos. Ele tinha sido professor. E agora já estava aposentado alguns anos.

Antes, a menina pegou a “priminha” que estava em um dos quartos da casa, uma bebezinha linda, e que acabava de acordar. O homem a colocou no colo e começou a contar a história para os dois mais velhos, que tinham por volta de 10 a 12 anos.


“Bom, vou contar uma história da minha primeira turma que assumi como professor!

Era perto daqui, lá no Capão Redondo, era uma escola pequena e bem simples.



Lembro que eu era tão jovem, devia ter meus 22 ou 23 anos, acho. Passei no concurso e depois de um tempinho me chamaram. Se chamava ‘Ramalho dos Santos’.”

O menino disse que conhecia o colégio e o avô passou a mão sobre a cabeça do menino dizendo que sabia como ele era inteligente.

E depois disso continuou a contar seus relatos para os netos que escutavam atentamente.

“Pois bem. Peguei poucas turmas, umas três ou quatro.

Crianças que eram bem difíceis. Muitos se viravam sozinhas. Os pais trabalhavam o dia todo, alguns andavam com a chave de casa no bolso ou em uma corrente no pescoço, outros tinham que cuidar dos irmãos mais novos no dia a dia, enfim... Cada um tinha uma história.

Nos corredores da escola, os papos eram sempre o mesmo, sabe? ‘Quem ficou com quem no último passeio?’, ‘Quantas grávidas esse ano?’, ‘Quantos você irá reprovar?’, ‘Viu um mau vestido hoje?’

Mas eu era mais na minha, sabe? Via naqueles rostinhos um possível futuro...

Ao sair da escola, ia andando para casa, encontrava alguns alunos que nem me cumprimentavam, outros ouvindo música no último volume, de um tal de Mano Brow do Racionais, de um Nego do Borel, ou de um tal funk proibidão, mas enfim.

Sempre via um menino da minha primeira turma que entrei como professor, chorando nos corredores da escola, na hora do intervalo, na quadra da escola, ou até no portão de entrada.”


- Por quê, Vô?

- Já conto, crianças!


“Eu não fazia nada no começo, pois não via isso na minha sala e ele era um bom aluno, sempre tirava ‘nota boa’. Até que aconteceu. Um dia todos saíram para o lanche e ele ficou na sala chorando.

Arrumei minhas coisas e fui até ele.

Uniforme da escola, cabelinho enrolado, a coisa mais linda, e os tênis bem gastos.”

- Juan? Posso te ajudar?

- Não, não pode!

- Talvez sim! Vamos conversar?

“Lembro que levei o menino pra diretoria e conversamos um pouquinho. Tinha uma história bem ‘típica’ da periferia.

Mãe solteira, trabalhava, tinha mais três filhos e morava num barraco de madeira ali perto.”


- E ele falou, vô?

- Não. Não falou.


“Na reunião de pais, conversei com a mãe dele, ela nunca faltava, tinham me falado. Ela disse que ele vivia querendo dinheiro, ela não sabia para que, mas morria de medo para que era esse dinheiro.”

- Eu tenho mais três, professor. ‘Embaixo’ dele tem mais um. Trabalho o dia todinho, tento educar do melhor jeito, mas ‘tá’ tão difícil.

“Resolvi conversar com ele mais uma vez. Um outro dia, que ele não chorava. Me sentei próximo dele, ele via os meninos mais velhos do ensino médio jogarem bola.

E depois de falar do Palmeiras e do Naruto, um desenho que ele gostava, acho que ganhei aquele coração.”


- Era que ano vô?

- Dois mil e vinte e ... e??? Nem lembro mais. Só lembro que era da minha primeira turma.


“Ele disse que queria ter o que os outros ‘muleques” tinham. Um tal de iphone X, celular da moda, um tênis nike no pé, um dia ir ver um jogo da seleção no Morumbi ou no Allianz e o mais simples... Entrar na sala de um cinema, ver aquela telona grande e ali ver um filme.

Mas que tipo de filme? Não tinha escolha, desenho ou de guerra, de amor ou de terror, ele queria ir ver uma dessas histórias de duas horas na poltrona.

Nunca tinha observado, mas a maioria dos alunos tinha um nike no pé e celulares bem melhores que o meu mesmo.

Continuei a conversa com meu novo amigo, mesmo aluno, criança, era meu amigo. Perguntei como os outros tinham tudo isso? Todos tinham uma história parecida com a dele, humilde.

Ele disse, e imaginei: ‘Que triste! Meu Deus, que triste’. Um assaltava, outro roubava, outro tinha uma vida melhorzinha e ganhava de aniversário.

- Pro, pensei tanto em roubar, pedir pra ‘passa’ baseado, ou pó, mas os “muleque” me falam que o tal do Zinha, pai do Luiz, não ia me querer, sou baixinho e magrelo... E minha mãe não pode...

- O Luiz é filho do...

- Ele tem tudo na mão, “fessor” – me disse o menino.

“Pois é, crianças. Dei aula pro filho do maior ladrão do bairro!”


A neta do senhor, já derramava várias lágrimas, secava os olhos com as mãos. E o avô continuou:


“Eu dei um abraço nele e perguntei se ele usava alguma droga, essas coisas, ele disse que não, disse que era “cagão”, e ouvia sempre o que sua mãe dizia e Leandro, seu irmão mais velho.

Então depois do abraço disse pra ele:

- Juan, você é um bom menino de tudo, tem boas notas, joga muita bola que eu sei... Se divirta, aproveite aquilo que pode com sua família e seus amigos, não seja triste! Daqui um tempinho você faz 16 anos, arruma um trabalhinho, esses de menor aprendiz, sabe??”

Ele sorriu entre lágrimas.

“Então chamei sua mãe na escola, pedi ‘pra’ secretária a ficha dele e liguei para ela, era o número da dona da casa que ela trabalhava.

Após conversar, soube que esse filho mais velho dela, estava no 3° ano do ensino médio. Procurava emprego e não achava de jeito nenhum. Ano de reservista, um ano vocês vão entender o que é isso... Documento de adulto.

Falei com a tia-avó de vocês, ela trabalhava em uma xerox ali perto do metrô na época, ela conseguiu com o chefe colocar o irmão do menino para trabalhar lá.

Depois de um mês mais ou menos, o menino não chorava mais. Depois da aula, era recreio, ele parou em frente minha mesa e dessa vez sorria. Nunca me esquecerei o que ele disse...”

- Realizei o primeiro daqueles sonhos! Meu irmão ontem me levou no cinema!

Me emocionei, e quem chorou fui eu! Abracei o menino mais uma vez. E liguei no mesmo dia para a mãe dele.

Ela disse:

- Obrigado, professor. Nossa vida começou a mudar.

Era da minha primeira turma!

- Nossa vovô! Que legal!


A tia das crianças morava nos Estados Unidos. O netinho pediu o celular do avô e fez uma ‘vídeo chamada’ para a tia, e quando eles contaram a história que o vô contou a tia disse:

- E esse que eu dei emprego está aqui ó! - Ela mostrava seu marido, irmão do menino Juan.

- E o Juan, vô, cadê? – Perguntou Dinho.

- Essa história eu deixo pra outro dia.

O avô arrumou os três netos e saiu com eles pelas ruas aos arredores até chegar na escola onde ele teve a sua primeira turma.


Por Eliaquim Batista.

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