Resenha | Livro: NA SOMBRA DO LAGARTO, de Maria Filomena Lepecki
- Blog Vida de Escritor

- há 1 dia
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Na sombra do lagarto (Oito e meio), da autora Maria Filomena Lepecki é um livro para quem ama um livro ambientado no Brasil, sempre repleto de reviravoltas na vida da protagonista, além de misturar religiosidade e astronomia.
Nesse fim de fevereiro, as fortes chuvas em Juiz de Fora (MG) e cidades da região deixaram localidades inteiras devastadas pela água e deslizamentos de terra e árvores, e até a conclusão desta resenha, já eram 60 mortos vítimas das inundações, de acordo com o portal da CNN Brasil. Em meio à situação de calamidade, um movimento intrínseco foi noticiado pelo site ACI Digital: na última terça-feira, dia 24, os padres da Diocese de Leopoldina se reuniam em seu retiro anual e os religiosos residentes da cidade de Ubá (MG) optaram por deixar o encontro para socorrer as vítimas da tragédia e abrirem as suas Paróquias como pontos de arrecadação de doações, além de atenderem os que mais precisam nesse momento.
São religiosos bondosos e solícitos com os mais humildes que Marinete de Silva encontra desde seus primeiros anos de vida, em uma simples cidade do interior de Minas Gerais. O nome da coitada ficou com esse erro por causa de um escrivão do simples município onde a agricultura familiar é a principal ocupação dos habitantes, as freiras cuidam da educação básica das crianças dos vilarejos e o único entretenimento são as Missas dominicais, onde o Padre é um verdadeiro pai de seus fiéis, inclusive da família da menina.
Ainda mais depois do falecimento de seu pai, quando, em tempo recorde, sua mãe casa-se novamente e leva para casa não um, mas dois animais, sendo que um deles tem seu nome no título do livro (risos). E para abandonar esse pesadelo, e ter a chance de uma vida feliz e digna, Marinete é levada para uma Abadia, chamada no livro de Mosteiro de Bocaiuvas, mas os dois são praticamente sinônimos, pois trata-se do local onde as freiras moram, também conhecido como Convento.
Quem quer insistir, insiste. E o vizinho voltou no dia seguinte. O homem e o bicho. Ele cortou um bocado de lenha. Ele cortou um bocado de lenha e deixou tudo empilhado atrás da casa. Na outra semana, veio consertar a cerca. Mamãe o chamou conosco. Matou uma galinha gorda e ensopou com verduras. De sobremesa, abriu uma compota de casca de laranja feita por vovó. Comida de domingo como nos tempos de papai.
p. 27
A menina passa a ajudar na cozinha, fazer serviços domésticos e cuidar da área verde. Quem já foi a um mosteiro sabe que é um trabalho árduo e todos têm as suas funções para cuidar dos lindos, e por vezes, gigantes monumentos históricos de oração e vida consagrada. Com o tempo, a menina vira moça, tem algumas freiras amigas, mas outras nem tanto assim, e uma visita bem diferente do estilo recatado e educado da jovem aparece no Mosteiro e quer transformar o ambiente de oração em um ambiente sem regras, bem coisa de adolescente, não é? Mas será que isso dará certo?

Durante o livro, a simples caipira e apenas com os estudos básicos, se transforma em uma mulher determinada em seus propósitos e que não se abala nos desafios que a vida, ou as pedras no caminho, colocadas por pessoas sem caráter, lhe impõe. Ao contrário, Marinete parece ser uma bombeira especialista em apagar as chamas das questões que surgem, seja com amigos, família ou trabalho. Com isso, o seu cotidiano é regado de diversões, contratempos, tecnologia, amigos bem diferentes uns dos outros.
Mas, mais do que isso, o livro é uma aula completa de astronomia para leigos. Confesso que aprendi demais com essa leitura, pois uma associação de astrônomos entra na história e, a partir daí, as estrelas, meteoros, meteoritos e até a própria lua são coadjuvantes de várias aventuras pelo país.
Depois de tantos estudos que fiz sobre meteoros e meteoritos, vou começar aqui pelas crateras, que em astronomia, são conhecidas como astroblemas. A mais antiga fica na Austrália, em Yarrabubba, com 2,2 bilhões de anos e 70 km de diâmetro. Depois vem Vredefort, na África do Sul, com 300 km de diâmetro e 2 bilhões de anos.
p. 43
Maria Filomena usa capítulos curtos, cada um é uma cena, para um livro de mais de trezentas páginas, o que pode assustar de primeira quem não tem o hábito da leitura, mas que rapidamente verá como a leitura é fluida, pois será muito fácil ler cinco capítulos na ida ao trabalho no ônibus ou metrô, e para quem é devorador de livros, irá ler tão rápido que nem irá perceber o dia passar. Além de que o livro sempre tem um gancho para você continuar a leitura e entrar na vida coitada de Marinete, que não tem um dia de paz ou folga, o que fará com que quem não lê com frequência goste da obra. E com certeza aquele hit do Tim Maia “Ora bolas, não me amole / Com esse papo, de emprego / Não está vendo, não estou nessa / O que eu quero? / Sossego, eu quero sossego" não pode ser a trilha sonora da vida da moça.
A obra apresenta diversas questões sociais como luto, violência doméstica, abuso sexual, inclusive de menores, saúde pública, desigualdade social e organizações criminosas. Além da perversidade humana, como ganância, traição, suborno, chantagem, vindas por vezes de pessoas bem próximas, o que me deixou bem intrigado, mas ao mesmo tempo como Deus coloca verdadeiros anjos em momentos difíceis, sendo pessoas que nem um parente distante são.
Para o momento em que os cristãos vivem agora, a Quaresma, quarenta dias de preparação para a Páscoa, o livro Na sombra do lagarto pode ser uma grande fórmula para recalcularmos como vivemos com os nossos parentes e com o nosso próximo. Daríamos abrigo para desconhecidos que apareceram em nossa cidade e são amigos de nossos amigos? Vale tudo para ter uma vida milionária? O nosso coração está sempre aberto a amar, perdoar quem nos fez sofrer?
Confesso que já fui peregrino no Brasil e no exterior, e ao ver pessoas darem um verdadeiro lar provisório sem saberem absolutamente nada da minha vida, alguns que não sabiam nenhuma palavra sequer da língua portuguesa, e ser recebido com festa digna do retorno do filho pródigo, unicamente por ter o mesmo ideal, no meu caso a religião, é um sentimento inexplicável. Fora que quem me conhece sabe que um dos meus santos de devoção é São Bento, e ele ensina que “O hóspede é o Cristo”. Fiquei com os olhos marejados ao ler as irmãs da Abadia mineira abrirem as portas de seu castelo para “estrangeiros” precisando de abrigo e famílias darem uma noite confortável para alguns dos personagens do livro.
Desde que se começou a registrar, foram encontrados apenas 261 meteoritos de Marte no planeta, contra maios de 63.000 dos outros. Ao preço de uns 1.000 dólares por grama, há uma demanda enorme por eles. Um preço que jamais será tabelado. Um preço que jamais será tabelado. Porque, nesse mercado complicado, só existe uma regra: um meteorito vale o que quiserem pagar por ele.
p. 166
Com um final improvável na cabeça do leitor e uma viagem às estrelas e a busca de pedras vindas de lugares mais altos do que podemos imaginar, Na sombra do lagarto (Oito e Meio), de Maria Filomena Lepecki está entre as minhas leituras favoritas do ano e a melhor desse mês.
O livro Na sombra do lagarto (Oito e Meio), de Maria Filomena Lepecki está disponível na AMAZON e nas melhores livrarias do país.
Abraços Literários,







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