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Resenha | Coração de Criança não morre (Global Editora), de Sérgio Vaz

“Minha mãe tem a cor da noite e os olhos afogados. E de tanto chorar, acabou me afogando também. Já meu pai tem a pele tecida pelo sol. E eu nasci com essa cor da madrugada, que é quando as estrelas vão se despedindo.”

p. 32

 


Com o nome em alta após participação na programação oficial na Flip e a abertura de exposição sobre o seu legado literário, no Museu das Favelas, Sérgio Vaz abre um caminho novo para a reflexão de crianças de todas as idades com livro lançado recentemente.


Você já se reencontrou com a criança que você foi um dia? Coração de criança não morre (Global Editora) nasce a partir de um sono atribulado de Gabriel, narrador-personagem, e ao caminhar pela casa em plena madrugada olha para a sua estante de livros e se depara com alguns daqueles que ele mesmo escreveu.


Depois de ver o dia nascer e não conseguir dormir, o poeta de meia-idade resolve dar uma volta no bairro em que cresceu. Até se encontrar com um menino muito inteligente, com jeito de poeta, chamado Gabriel e com pesos que apenas as crianças que nascem “da ponte pra cá”, como diria Mano Brow, sabem carregar, mesmo muitas vezes não tendo idade para carregá-los.


Com a falta da mãe e o pai trabalhando, a vizinha é quem cuida do menino durante o dia, mas por ter outros filhos e muitos afazeres, ele consegue dar umas “escapulidas”, para brincar, ir ao campinho do bairro ou encontrar algum amiguinho? Talvez, pois o seu grande desejo é de ter um encontro, mas que chega a ser angustiante e lhe faz muita falta, não de comida, mas de sua mãe. A sua esperança é encontrá-la pois daria uma grande felicidade ao seu amado pai que se vira como pode para cuidar do menino.



A obra apresenta ao leitor que a vida na quebrada acontece normalmente como em qualquer metrópole. As crianças vão para escola e são mestres das brincadeiras, as pessoas passeiam com cachorros, outros saem cedo para o trabalho e voltam só no fim da noite. Com isso, Vaz desmistifica o que a grande mídia e as classes mais altas pensam ao ouvirem nomes de bairros periféricos onde quer que seja.

 

“A infância era uma época tão mágica que até os desenhos em preto e branco eram coloridos. E os super-heróis muitas vezes nos salvavam de nossas vidas, que pareciam filmes sem final feliz. Depois com o tempo descobrimos que quem realmente usava capa e tinha superpoderes eram os pais e as mães”.

p. 20

 

A obra de fácil compreensão, apresenta os desejos e sonhos de crianças e como alguns fatos da infância refletem por uma vida inteira. Além disso, vermos o lado feliz da infância, onde todo adulto tem saudade, como jogar bola, brincar de peão e de empinar pipa.


Enquanto Conceição Evaristo luta veemente para lembrar-se a cor dos olhos de sua mãe, em seu clássico “Olhos d’água” (Pallas Editora), Sérgio Vaz não consegue reconhecer a si mesmo nem lembrar de sua face quando criança. Com isso, é interessante como todo escritor sempre busca lembranças a partir do passado e é na literatura que encontram as respostas.


Em minhas sessões de terapia, volta e meia relembro de mim com quatro, cinco anos de idade e ao olhar para o homem que me tornei, reflito tantas coisas que passei e como os pais manipulam os filhos em diversas questões da vida e com isso, algumas jornadas já podiam ser prescritas ao olhar minhas atitudes até mesmo no desafio de aprender a ler e a escrever.


Diferente da velha história onde o pai sai para comprar cigarros e não volta, em “Coração de criança não morre” (Global Editora), o jogo se inverte e quem não assumiu, ou não aguentou por algum motivo a vida familiar, é a mãe. E ouso falar que em vez de Gabriel o(s) protagonista(s) deveria se chamar Sérgio de sobrenome Vaz, visto que o bom-humor está presente na obra e por vezes a obra se encontra com a vida do criador da Cooperifa.



Não sei o credo de Sérgio Vaz, mas deixo aqui um recado caso ele leia a minha resenha, mas sei que é difícil: “Você não é o único que já pediu a intercessão de Nossa Senhora da Literatura e vi muitos milagres feitos pelas páginas e poesias soltos por aí. Talvez você e eu sejamos um desses!”

 

Abraços Literários,


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